O que é andropausa?
A andropausa é um termo criado para descrever a fase da vida dos homens em que ocorre a queda dos níveis de testosterona, principal hormônio sexual masculino, relacionado ao envelhecimento, sendo um equivalente ao climatério nas mulheres. Muitos autores discordam desta terminologia e preferem chamar de Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM). Ao contrário das mulheres, em que o início do climatério é bem definido, a partir de um ano após a menopausa (última menstruação) e os sinais e sintomas são mais específicos, principalmente as ondas de calor (embora algumas mulheres não irão ter), nem todos os homens apresentarão critérios clínicos e laboratoriais de andropausa ao longo da vida. Apesar disto, a incidência de casos de andropausa tende a aumentar conforme o indivíduo envelhece, atingindo 90% dos homens acima dos 80 anos quando se utiliza os níveis de testosterona livre como critério laboratorial. A disfunção hormonal é progressiva, não há um ponto exato de início, mas considera-se por volta dos 50 anos de idade. A andropausa tem causa multifatorial, envolve redução no número de células dos testículos produtoras de testosterona, diminuição da circulação sanguínea para as gônadas, piora da resposta dos testículos ao estímulo dos hormônios da glândula hipófise (FSH e LH, que controlam a produção de hormônios testiculares) e diminuição dos ritmos hormonais da glândula hipófise e do hipotálamo (estrutura cerebral que controla a hipófise) relacionado ao próprio envelhecimento. Como é feito o diagnóstico de andropausa? O diagnóstico é feito pela associação de achados clínicos sugestivos de andropausa e confirmado por baixos níveis de testosterona (total e livre calculada) em uma população de meia-idade e idosa. Deve-se antes descartar outras causas que levem a um quadro clínico semelhante, como alcoolismo, algumas medicações de uso psiquiátrico, anti-hipertensivos, alguns fármacos para gastrite, quadros depressivos, tumores produtores de prolactina, doenças tireoidianas, etc. Os principais sinais e sintomas de andropausa são: diminuição de libido (apetite sexual) e da eficiência das ereções, além de outros como piora do vigor físico, alterações de humor (depressão, irritabilidade, ansiedade), diminuição na frequência de barbear, perda de pelos, fadiga excessiva, acúmulo de gordura abdominal, perda de estatura, entre outros. A deficiência de testosterona pela andropausa pode trazer riscos à saúde? Além do quadro clínico acima citado, a andropausa aumenta o risco de desenvolvimento de outras doenças como osteoporose, anemia, aumento na incidência e mortalidade por doenças cardiovasculares, como angina, infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e doenças respiratórias. A deficiência de testosterona relacionada ao envelhecimento predispõe a perda de massa muscular e substituição por tecido adiposo, ganho de peso e, por conta disto, piora nos controles das taxas de açúcar nos diabéticos. Importante destacar que os diabéticos apresentam maior risco de evoluir com deficiência de testosterona, o que leva a um círculo vicioso de uma doença piorando a outra. E como tratar? Em primeiro lugar, enfatizamos a importância de mantermos o peso controlado, pois o tecido adiposo é capaz de transformar a testosterona em estrógeno, principal hormônio feminino, sendo isto mais evidente em indivíduos com sobrepeso, o que leva a piora dos sintomas atribuíveis a andropausa. A prática de atividades físicas supervisionadas, especialmente aquelas com carga, estimulam a maior produção de testosterona e melhora do bem-estar geral. Nos casos comprovados de andropausa e após exclusão de outras causas que levem a redução deste hormônio, está indicada a reposição hormonal de testosterona. No Brasil, temos disponíveis as seguintes formulações: – Injeções intramusculares de média duração, que devem ser aplicadas a cada 2 a 4 semanas a depender dos níveis de testosterona. Tem a vantagem de serem mais baratas, entretanto apresentam excessiva flutuação dos níveis de testosterona, podendo levar a variação na libido, humor e vigor físico. – Injeções intramusculares de longa duração, que devem ser aplicadas a cada 6 a 12 semanas. São mais estáveis quanto aos seus efeitos, apresentam maior comodidade quanto a menor frequência de injeções, porém o tratamento é mais caro e as injeções costumam ser um pouco dolorosas. – Géis de uso transdérmico e axilar, apresentam muito boa estabilidade e eficácia clínica, são de fácil aplicação, mas podem provocar irritação na pele de algumas pessoas. Além disto, deve se ter cuidado em evitar o contato do local onde foi passado o produto com a pele de mulheres e crianças, por um período de até 6 horas, devido risco de passagem transdérmica e masculinização. Devem-se evitar formulações de uso oral, pelo risco de toxicidade ao fígado, aumento no risco de tumores deste órgão e eficácia irregular no controle dos sintomas. Importante destacar, antes de iniciar o tratamento com testosterona, deve-se realizar cuidadosa avaliação da próstata com o urologista, através de exame físico, dosagem de PSA e ultrassom prostático. Este monitoramento deve ser periódico e é importante frisar que a reposição de testosterona não induz ao aparecimento de câncer de próstata, mas pode acelerar seu crescimento naqueles pacientes que estão utilizando a medicação e desconhecem serem portadores deste câncer. Outra contraindicação absoluta, apesar de incomum, é o câncer de mama masculino. Dentro das contraindicações relativas, destaca-se a apnéia do sono, aumento nos níveis de hemoglobina/hematócrito (glóbulos vermelhos) no sangue, aumento no volume da próstata não relacionado ao câncer (hiperplasia prostática benigna), quadros de epilepsia e enxaqueca. Nestes casos deve-se pesar riscos e benefícios e exige-se um seguimento mais frequente. Procure seu médico e nunca inicie uso de hormônios masculinos e qualquer outra medicação sem acompanhamento! Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Leite e derivados e sua importância para saúde

Consumir leite e seus derivados, tais como queijos, manteiga, iogurte e requeijão, sempre foi entendido como um hábito dietético saudável, afinal de contas somos mamíferos e parece ser uma simples questão de bom senso, pois os laticínios estão na pirâmide alimentar desde sempre. Entretanto, nos últimos anos o consumo de leite e derivados começou a cair em descrédito, muito em função de artigos e declarações de alguns médicos e nutricionistas que mencionam o risco de alergias, desenvolvimento de intolerância à lactose (que é o açúcar presente no leite) e risco relacionado aos conservantes em leites processados. Alguns profissionais, inclusive, sugerem retirar o leite da dieta alegando que a lactose encontrada no mesmo estaria relacionada ao ganho de peso. Certos jargões como “dieta livre de lactose e glúten para emagrecer” e “nenhum mamífero, exceto humanos, consome leite na vida adulta”, criaram raízes tão fortes no subconsciente de algumas pessoas, ao ponto de muitos abandonarem por completo o consumo de laticínios. Mas o que é real e o que é mito quanto ao risco de se consumir leite? É fato que nem todos podem consumir leite e derivados sem ter algum tipo de prejuízo à saúde. O exemplo mais dramático talvez seja dos casos de Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV). Nesta situação clínica, mais frequente em crianças pequenas, o sistema imunológico do indivíduo desenvolve uma reação de hipersensibilidade quando entra em contato com proteínas do leite de vaca e passa a produzir anticorpos e substâncias inflamatórias contra estas, mas ao mesmo tempo acaba por agredir também o próprio organismo, gerando reações alérgicas que vão desde urticária, sangramento digestivo até quadros dramáticos de crise asmática, edema de glote, insuficiência respiratória e choque anafilático. O tratamento, nestes casos, é evitar totalmente o contato com estas proteínas e utilizar formulações específicas para alérgicos. Não custa lembrar que o risco de desenvolver APLV é maior em bebês que consomem leite de vaca antes dos 6 meses de vida. Nesta fase, recomenda-se somente leite materno ou fórmulas especialmente preparadas para esta faixa etária. Outro exemplo é o da Intolerância à Lactose (IL), que é um problema muito mais frequente do que APLV, porém mais brando. Cerca de 40% da população brasileira e 2/3 da população mundial tem algum grau de IL. Neste caso, há uma deficiência na produção de uma enzima digestiva chamada lactase, que é responsável por quebrar a lactose em moléculas de açúcares menores e mais facilmente absorvidas pelo intestino. Desta forma, a lactose acaba por não ser digerida adequadamente e passa a ser mais utilizada por bactérias fermentadoras do intestino. Por conta disto, tanto pela permanência da lactose no intestino quanto pela liberação de gás carbônico pelo processo de fermentação bacteriana, desenvolve-se o quadro clínico típico da IL, com dor em cólica e estufamento abdominal, flatulência, diarreia e má absorção do conteúdo lácteo em maior ou menor grau, a depender do nível de deficiência de lactase. O tratamento consiste em utilizar leite livre de lactose (ou que já contenham a enzima lactase em sua formulação) ou derivados que contenham uma menor quantidade de lactose, como queijos não frescos (ex; parmesão, cheddar, brie, etc) e iogurte, que durante sua produção, perde cerca de 25% a 50% de lactose pelo processo de fermentação bacteriana. Outra opção é o uso de enzimas digestivas para lactose (em sachês) no momento em que for consumir algum laticínio. Entretanto, não existe qualquer embasamento científico em afirmar que o consumo de lactose aumente o risco de ganho de peso. É óbvio que, por se tratar de um açúcar, o consumo de grandes quantidades pode levar a um aumento no aporte calórico, mas se consumido dentro dos limites recomendados para leite e derivados, não haverá maiores problemas. E quais os benefícios do consumo de leite e derivados? Sem nenhuma dúvida, os laticínios são a principais fontes de cálcio de nossa dieta. Há outras, como os vegetais de folhas escuras e frutas secas, mas em um percentual menor. Seu consumo é importante em diversas fases da vida; na infância e na adolescência é fundamental para o crescimento e ganho de massa óssea e desenvolvimento dentário; nos adultos e idosos para a manutenção da densidade do esqueleto. A deficiência de cálcio está associada, por exemplo, ao maior risco de osteoporose e fraturas. Leite e derivados não são apenas importantes como fontes de cálcio, eles fornecem proteínas, vitaminas e energia e sua exclusão da dieta não é recomendada por qualquer associação médica ou pelas principais autoridades no assunto, sob o risco de induzir carências nutricionais, a menos que seja feita sob supervisão médica e nutricional e somente nos casos em que seu consumo deve ser evitado, como na APLV. Além disto, sabemos hoje que o consumo regular de proteínas aumenta a saciedade e favorece programas de reeducação alimentar visando perda de peso. Discute-se hoje que o aumento no conteúdo de proteínas no café-da-manhã auxiliaria na diminuição de ingesta calórica ao longo do dia, e aí estaria incluído como fonte o leite e seus derivados. Um estudo sueco de 2014 mostrou que o consumo regular de laticínios gordurosos diminuiu o risco de desenvolvimento de diabetes tipo II. Essa informação tem grande impacto, entretanto, deve-se atentar aos níveis de colesterol antes de se adotar como rotina o consumo de laticínios com maior teor de gordura. E quanto devemos consumir de leite e derivados? O consumo preconizado de leite é, em média, de 2 a 4 copos ao dia. Apesar do estudo sueco preconizar o uso de laticínios gordurosos, a recomendação oficial é de dar preferência para os desnatados. Com relação as necessidades de cálcio na dieta, leite e derivados estão entre as principais fontes deste elemento e é bastante difícil atingirmos nossas metas de ingestão diária de cálcio sem consumirmos estas fontes. A tabela 1 mostra as recomendações conforme diferentes faixas etárias e a tabela 2 o conteúdo de cálcio nos alimentos: Idade Cálcio (mg) 0-6 meses 200 6-12 meses 260 1-3 anos 700 4-8 anos 1000 9-18 anos 1300 19-50 anos 1000
Cirurgia Bariátrica: perguntas e respostas

O que é cirurgia bariátrica? A cirurgia bariátrica é uma modalidade de tratamento para obesidade que consiste em modificar cirurgicamente a anatomia do aparelho digestivo para favorecer um menor aporte calórico e assim, induzir a perda de peso. Não existe apenas um único tipo de cirurgia bariátrica. Existem várias modalidades cirúrgicas e elas podem ser divididas do ponto de vista funcional em: predominantemente restritivas, em que a perda de peso é atribuída principalmente a uma redução no volume do estômago, predominantemente disabsortivas, em que o principal efeito está relacionado a uma diminuição na capacidade de absorção de calorias e nutrientes pelo intestino. Além disto elas induzem a modificações em hormônios que regulam o apetite e o controle glicêmico, em maior ou menor grau, como veremos mais adiante. De todos os tipos de tratamento para obesidade, sem dúvida alguma, a cirurgia bariátrica é a que induz maior perda de peso dentro de um determinado intervalo de tempo e a uma resolução ou diminuição mais efetiva das complicações relacionadas a obesidade, como diabetes, hipertensão arterial, doenças osteodegenerativas, apnéia do sono, etc. Entretanto, por ser um método invasivo e passível de complicações, ela é reservada para o tratamento de casos mais graves de obesidade, onde o benefício da cirurgia supera em muito os riscos relacionados ao procedimento. Para quem está indicada a cirurgia bariátrica? A cirurgia está indicada para pacientes portadores de obesidade grau III, que são aqueles cujo o índice de massa corpórea (IMC) é ≥ 40 kg/m² e para casos de obesidade grau II (IMC entre 35 e 39,9 kg/m²), acompanhada por complicações graves relacionadas a obesidade, como diabetes, hipertensão arterial, apnéia obstrutiva do sono, cardiomiopatias relacionadas ao excesso de peso, doenças osteodegenerativas graves que dificultam a locomoção e qualidade de vida do paciente, como osteoartrites em joelhos, quadris, coluna e outras articulações, hérnia de disco, etc. Para calcular o IMC, utilize a seguinte fórmula: Peso/Altura², ou você pode clicar neste link e acessar a calculadora de IMC da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). A faixa etária indicada para cirurgia bariátrica, no momento, vai dos 18 aos 65 anos de idade. É contraindicada para pacientes de alto risco cirúrgico, como portadores de insuficiência cardíaca e doença coronariana graves, insuficiência hepática (cirrose hepática de grau avançado) e renal (por exemplo, pacientes em diálise), dependentes de álcool, drogas e outras substâncias psicoativas e portadores de distúrbios psiquiátricos graves. Entretanto, tais critérios de indicação e contraindicação estão constantemente em discussão e é provável que passarão por reformulações em breve, admitindo-se mais pacientes, como os de idade acima de 65 anos e adolescentes entre 16 e 18 anos e portadores de diabetes tipo II com IMC entre 30 e 35 kg/m² que não conseguem atingir um controle glicêmico adequado, apesar de diversas intervenções do endocrinologista. Quais os tipos de cirurgia bariátrica, como ela induz perda de peso e qual especialista deve operar? A cirurgia deverá ser realizada por cirurgião do aparelho digestivo habilitado e somente após indicação do médico endocrinologista. Enfatizaremos aqui as duas modalidades cirúrgicas mais realizadas em nosso meio por apresentarem a melhor relação risco x benefício, a Gastrectomia Vertical ou Sleeve Gástrico (chamarei aqui pelo nome mais curto e comum – sleeve) e o Bypass Gastrojejunal em Y de Roux (ou apenas bypass). Ambas as técnicas devem ser realizadas preferencialmente por via laparoscópica ao invés das antigas técnicas por via aberta da cavidade abdominal. Todas as cirurgias são feitas sob anestesia geral. Não entrarei em detalhes a respeito do Duodenal Switch, Derivação Bílio-Pancreática e Banda Gástrica Ajustável, por serem técnicas menos utilizadas e mais passíveis de complicações (poderei abordar em um outro artigo, se assim desejarem) e para não deixar o assunto muito pesado. Futuramente em outro post comentarei sobre o Balão Intragástrico. Gastrectomia Vertical ou Sleeve Gástrico O sleeve consiste na redução do volume gástrico através de uma linha de corte longitudinal ao longo do estômago, onde é excluída a área junto a grande curvatura gástrica. Utiliza-se uma sonda calibradora (vela) introduzida dentro do estômago que servirá como ponto de referência para se realizar o corte e a sutura ou grampeamento do estômago remanescente. Quanto mais estreita a sonda, menor será o volume gástrico final. Comparado a outras técnicas, tem a vantagem de ser uma técnica mais simples e com tempo cirúrgico mais curto. Pode ser utilizada tanto como procedimento único para perda de peso quanto pode auxiliar em um emagrecimento inicial em pacientes com obesidade muito acentuada, preparando o mesmo para uma técnica cirúrgica definitiva a ser feita em um segundo tempo, como o bypass e outros procedimentos mais complexos. A perda de peso, bem como a remissão de doenças como o diabetes tipo II e hipertensão arterial, são menores do que no bypass e existe um risco em potencial de piora dos quadros de refluxo gastroesofágico em quem já apresenta esta situação clínica, em comparação as outras técnicas. Por outro lado, o risco de carências nutricionais e necessidades de suplementação pós-operatória é menor (exceto em relação à Vitamina B12). Bypass Gastrojejunal em Y de Roux O bypass (figura 2) é uma técnica mais complexa e consiste em reduzir o estômago a uma pequena câmara entre 25 e 50 ml de volume e desviar o trânsito alimentar diretamente para a parte do intestino delgado conhecida por jejuno, excluindo cerca de 50 cm de passagem do alimento pela parte inicial do intestino delgado, conhecida por duodeno. As enzimas digestórias que são produzidas pelo pâncreas e os sais biliares que são liberados dentro do duodeno que, a partir de então não receberá mais o bolo alimentar, são levados para o jejuno através de outra junção (anastomose), cerca de um metro após o alimento ter deixado o estômago. Pode-se colocar um anel ao redor do estômago reduzido, para se aumentar a eficácia da técnica, mas esta medida vem cada vez sendo menos utilizada pelo risco de complicações. Eu sei que é difícil entender estes termos técnicos acima, mas o que interessa de fato é entender que esta técnica tanto reduz o volume do estômago (restritiva) quanto diminui
Síndrome dos Ovários Policísticos: o que as mulheres precisam saber?
A síndrome dos ovários policísticos é uma entidade clínica bastante comum entre as mulheres. É possível que a própria leitora já teve ou sofre com este problema ou, ao menos, conhece alguém próximo que tenha. É da área de atuação não apenas do ginecologista, como também interessa ao dermatologista e ao endocrinologista, em nosso caso específico por conta das alterações hormonais associadas e o que elas podem acarretar no organismo feminino. É caracterizada pela produção excessiva de hormônios masculinos, conhecidos por andrógenos, pelos ovários. Mais adiante explicaremos algumas teorias que levam os ovários a produzir excessivamente estes hormônios. Os andrógenos, em pequenas quantidades, são importantes para o bem-estar físico da mulher, pois auxiliam na manutenção do desejo sexual, ganho de massa muscular e vigor físico. Entretanto, em excesso seus níveis podem ser prejudiciais. E o que o excesso de hormônios masculinos pode provocar nas portadoras da síndrome dos ovários policísticos? A seguir estão listadas as principais manifestações clínicas da síndrome dos ovários policísticos. Lembrando que não é obrigatório que a mulher tenha todos os seguintes achados: – Ciclos menstruais irregulares e, em alguns casos, até desaparecimento dos ciclos (amenorreia) – Ausência de ovulação e infertilidade (dificuldade para engravidar) – Aumento de pelos em áreas típicas masculinas, como tórax, abdômen, coxas, costas, rosto (bigode e barba), etc, situação chamada de hirsutismo. – Acne (espinhas) e oleosidade excessiva da pele – Escurecimento da pele em regiões de dobras cutâneas, como axilas, abaixo das mamas, atrás e nas laterais do pescoço, etc (acantose nigricans) – Aumento do odor axilar Além disto, a síndrome dos ovários policísticos está associada a doenças potencialmente graves, seja como um possível fator causal ou como um marcador de risco para evoluir com as seguintes situações: – Diabetes tipo II e intolerância à glicose – Diminuição nos níveis de colesterol HDL (colesterol “bom”) – Hiperplasia e câncer de endométrio (camada interna do útero) A respeito da associação com as doenças acima, é importante destacar que o risco é maior naquelas portadoras da síndrome e que estão acima do peso. Como diagnosticar? A síndrome dos ovários policísticos é diagnosticada pela seguinte tríade: quadro clínico compatível com excesso de hormônios masculinos conforme acima explicado, achado ultrassonográfico de ovários policísticos no exame de ultrassom pélvico e níveis elevados de andrógenos detectados pelo exame de sangue. Para se fechar este diagnóstico, é necessário pelo menos dois dos três critérios acima e a exclusão de outras doenças que podem levar a um quadro clínico semelhante (ex: hirsutismo idiopático, hiperplasia adrenal congênita, tumores de ovário e de adrenal, uso de medicamentos como corticóides, ácido valpróico, etc). Entretanto, a síndrome dos ovários policísticos é disparada a principal causa de excesso de hormônios masculinos nas mulheres. Importante destacar que nem todas as portadoras encontrarão os microcistos ovarianos ao ultrassom, mas nem por isso deixarão de ser suspeitas. E quais são as causas da síndrome dos ovários policísticos? Não sabemos exatamente em cada caso o que eleva os níveis de hormônios masculinos, existem várias teorias, as mais conhecidas são: – Imaturidade do sistema reprodutor, sendo esta situação mais frequente em mulheres mais jovens, que começaram a menstruar há pouco tempo ou mesmo ainda não tiveram a primeira menstruação. Neste caso, há um desbalanço na relação entre hormônios femininos e masculinos formados, com aumento relativo deste último. – Excesso de peso com predomínio de acúmulo de gordura abdominal, que induz a produção excessiva de insulina, um hormônio responsável por manter os níveis de açúcar no sangue controlados, mas que em excesso alterará a produção de hormônios pelos ovários, induzindo a um aumento na produção de hormônios masculinos. Por isto é mais frequente esta síndrome em mulheres com sobrepeso e obesidade. – Deficiência de enzimas ovarianas que convertem a testosterona (hormônio masculino) em estrogênio (principal hormônio feminino). Os hormônios femininos são derivados dos hormônios masculinos e, neste caso, a uma falha neste processo de conversão. – O próprio acumulo de testosterona dentro do ovário relacionado as causas acima explicadas levaria a uma evolução incompleta do folículo ovariano em óvulo maduro. Este folículo ovariano que não amadureceu até o fim (chamado de atrésico) é incapaz de converter hormônio masculino em feminino e se acumulará a cada ciclo nos ovários, criando um círculo vicioso que perpetuará este quadro de excesso de hormônios masculinos. São eles que darão o aspecto de policistos no exame de ultrassom. Portanto, será mais comum fazermos o diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos em mulheres adultas jovens e adolescentes e que estão acima do peso. Entretanto, alguns casos podem se manter ao longo de boa parte da vida fértil da mulher e também em mulheres com peso adequado. Como tratar a síndrome dos ovários policísticos? Conforme já discutimos, é importante para as portadoras da síndrome manterem o peso controlado e seguirem um programa de reeducação alimentar e atividades físicas. Assim como outras situações clínicas já discutidas em nosso blog, essa é mais uma para conta desfavorável de se estar acima do peso. Primeiramente é necessário saber se a mulher deseja engravidar em breve. Isto porque algumas das medicações dadas para tratar a síndrome dos ovários policísticos podem provocar malformações fetais. A depender da medicação em uso, deve-se aguardar pelo menos 6 meses de suspensão da mesma para planejar a gestação. No caso de mulheres cuja principal queixa é a infertilidade, utiliza-se medicações que favoreçam a ovulação, como a metformina e o acetato de clomifeno. Já naquelas em que a principal queixa seja a irregularidade menstrual e as manifestações dermatológicas como excesso de pelos e acne, anticoncepcionais orais são a medicação de primeira escolha. Na grande maioria dos casos o uso exclusivo de pílulas anticoncepcionais já é suficiente para o controle dos sintomas, entretanto a indicação de qual a melhor pílula permanece controversa e deve ser individualizada e deve-se verificar antes se há alguma contraindicação ao seu uso. Importante destacar que a melhora do excesso de pelos não é imediata e só será mais notada a partir do 6º mês de tratamento, atuando sobre o nascimento do pelo
Gordura no fígado: não a subestime!

A gordura no fígado é o termo popular para a situação clínica conhecida por esteatose hepática (mais especificamente abordaremos a doença hepática gordurosa não alcoólica). Este é um outro assunto que se tornou muito debatido nos últimos anos, tanto pela área de hepatologia (especialidade que estuda desordens do fígado) quanto pela endocrinologia. Isto porque pessoas com excesso de peso, principalmente aquelas que acumulam mais gordura abdominal (ou visceral), apresentam um risco elevado de acumular gordura nas células do fígado. Com a epidemia de obesidade vista nas últimas décadas, houve um aumento concomitante nos casos de esteatose hepática. Mas não apenas a obesidade se relaciona a esta condição clínica. O diabetes, o aumento nos níveis de colesterol, infecção pelo vírus HIV, uso de medicamentos como corticóides, anticoncepcionais que contenham estrógeno, pós-cirurgia bariátrica, desnutrição e qualquer situação de emagrecimento rápido também promovem o acúmulo de gordura no fígado (nestes últimos casos, há uma grande quantidade de gordura liberada pelas células adiposas que, obrigatoriamente deverá passar pelo fígado para ser convertida em fonte de energia utilizável pelas células do organismo, daí o seu acúmulo nestas situações). Talvez você mesmo ou alguém próximo já experimentou a situação de se deparar com um achado ocasional de gordura no fígado ao fazer um exame de imagem como ultrassom ou tomografia computadorizada de abdômen. E, a depender do médico que avaliou este exame, pode ser que este diagnóstico passe batido, seja por ser algo extremamente comum nos dias de hoje ou simplesmente por desconhecimento do profissional de saúde do que isto realmente significa, o que nos leva a seguinte constatação: A gordura no fígado é algo potencialmente grave e não estamos lidando com esta doença da forma correta Uma doença? Eu não pensei que fosse algo tão sério assim! É o que sempre escuto no consultório quase todos os dias, um semblante de surpresa quando alerto sobre os riscos que a gordura no fígado pode trazer. E qual o risco? Estudos mostram que cerca de 76% dos obesos e 50% dos diabéticos apresentam doença hepática gordurosa não alcoólica, detectados por exame de imagem, mas o percentual é ainda maior se a avaliação for feita por biópsia do fígado. Dos que possuem gordura no fígado, de 18,5% a 37% apresentarão esteato-hepatite. A esteato-hepatite é o passo seguinte após o acúmulo de gordura no fígado. Significa um estado de inflamação crônica do fígado, que leva a disfunção e destruição das células deste órgão. O tecido adiposo produz substâncias inflamatórias tóxicas para o fígado e, além disso, o próprio acúmulo de gordura dentro das células do fígado leva a formação de espécies reativas de oxigênio (uma espécie de radical livre), que lesiona e destrói estas células. Durante este processo inflamatório, notamos aumento no sangue de marcadores de lesão no fígado, como AST (TGO), ALT (TGP), GGT, ferritina, diminuição dos níveis de albumina, de fatores de coagulação, etc. Em alguns casos está indicada a biópsia do fígado para termos uma noção mais precisa do grau de lesão do fígado e melhorarmos o tratamento. Na biópsia, o tipo de lesão provocada pela gordura no fígado é bastante semelhante a ocasionada pelo álcool. Após um determinado período de esteato-hepatite, cerca de 5,8% dos indivíduos que possuem gordura no fígado irão evoluir para cirrose e insuficiência hepática, que é o estágio final deste processo de lesão no órgão, em que uma grande parte do tecido sadio do mesmo é substituído por um tecido cicatricial que não tem a mesma função das células do fígado. Nos casos de cirrose mais grave, o indivíduo passa a apresentar as manifestações clínicas típicas da insuficiência hepática, tais como: icterícia (amarelamento da pele, olhos e mucosas), hemorragias intestinais, edema (inchaço pelo corpo), ascite (acúmulo de líquido em grande quantidade no abdômen), alteração no nível de consciência e coma, maior risco de evolução para câncer de fígado e óbito em alguns casos. Neste estágio, somente o transplante de fígado poderá resolver em definitivo este quadro clínico. Nos países ocidentais, hoje o acúmulo de gordura no fígado é a doença mais comum deste órgão e a terceira principal doença indicadora de transplante de fígado, ficando apenas atrás da doença hepática ligada ao alcoolismo e das hepatites virais. Portanto é algo extremamente comum e que pode estar mais próximo de você do que imagina. E o que eu posso fazer para reduzir os níveis de gordura no fígado? Em primeiro lugar, recomenda-se mudança de estilo de vida dos portadores de gordura no fígado. Nos que estão acima do peso, sugere-se perda de pelo menos 10% do peso em um intervalo de 6 meses (evitar perdas rápidas de peso para não piorar o acúmulo de gordura e inflamação, como dito antes); realização de atividades físicas, incluindo atividades de resistência física (musculação, pilates), de 45 a 60 minutos ao dia, 3 vezes por semana; evitar bebidas alcoólicas, frituras, refrigerantes e alimentos ricos em frutose como sucos de uva, manga, laranja, mel, etc (o excesso de frutose está relacionado a elevação dos níveis de triglicérides que se acumularão no fígado) e incentivar o consumo de vegetais, frutas em quantidade moderada, uso de alimentos integrais, carnes magras e gordura mono e poli-insaturada (encontrada no azeite extra-virgem, castanhas, avelãs, etc). Pacientes submetidos a cirurgia bariátrica devem ser acompanhados de perto após o procedimento. Muitos ao começar a perceber que estão atingindo as metas de emagrecimento desaparecem dos consultórios médicos e aí começam os problemas. Importante também relatar ao seu médico o uso de medicações e doenças que possam estar relacionadas com o acúmulo de gordura no fígado, como também já dissemos atrás. Finalmente, em casos selecionados, utilizamos medicações como a metformina, vitamina E, pioglitazona, liraglutide, etc. Entretanto, a indicação de medicamentos sempre deve ser individualizada e feita por médico capacitado em tratar esta doença. Importante ressaltar que antes de tratarmos a esteatose hepática, o médico deverá ter investigado e excluído outras situações clínicas que provocam hepatite (alcoolismo, infecções pelos vírus da hepatite B e C, hepatite auto-imune, uso de medicamentos tóxicos para o fígado, hemocromatose, etc).
Sono ruim, obesidade e diabetes

Não é coincidência a relação vista nos últimos anos entre a piora na qualidade do sono com o aumento no número de casos de pessoas acima do peso e diabéticos. Dados norte-americanos do Center of Disease Control and Prevention (CDC) concluíram que mais de um terço da população dos EUA (cerca de 83,6 milhões de adultos) dormem menos de 7 horas por dia. Ao mesmo tempo, a proporção de indivíduos obesos e diabéticos só vem aumentando, hoje cerca de 35,1% desta população está obesa e mais de 29 milhões de norte-americanos possuem diabetes. Além disto, má qualidade do sono também se relaciona a piora dos controles de pressão arterial, colesterol e de transtornos do humor. Atualmente existe um grande número de estudos publicados demonstrando que a deterioração da qualidade do sono é fator de risco para o aumento na incidência de obesidade e diabetes. Dormir mal induz a uma elevação de hormônios sabidamente relacionados com ganho de peso, resistência à insulina e diabetes, como cortisol, epinefrina, norepinefrina e ghrelina e a diminuição de hormônios que favorecem o gasto energético, como o TSH (que regula a produção dos hormônios tireoidianos T4 e T3) e leptina. Por que o sono de tantas pessoas piorou nos últimos anos? A verdade é que nos dias de hoje não damos o verdadeiro valor que o sono merece. Enfatizamos a importância de se fazer uma dieta adequada e atividades físicas, mas dormir bem é tão importante quanto estes dois primeiros. Mudanças nas jornadas de trabalho, com a inclusão de horas-extras noturnas, reuniões de trabalho e eventos sociais após o expediente, preferência por realizar tarefas profissionais no período noturno ao invés do diurno, etc, levando a uma diminuição no sono noturno, estiveram relacionadas a um aumento no peso aferido pelo índice de massa corpórea (IMC), pior controle nos níveis de colesterol, aumento da medida de circunferência abdominal e de resistência à insulina, fator este relacionado ao desenvolvimento futuro de diabetes, de acordo com estudo realizado pela Universidade de Pittsburgh em 2012. Outro ponto estudado foi a maior exposição à luz artificial no período noturno. Desde o excesso de iluminação domiciliar à noite, passando pelo uso prolongado de aparelhos luminosos como TV, computadores, telefones celulares, tablets, etc, ainda mais se os mesmos estão no mesmo ambiente em que a pessoa dorme, vem sendo estudados por uma equipe de pesquisadores da Universidade do Colorado como um provável fator relacionado a mudanças no ciclo de sono e vigília. Finalmente, outra causa bastante relacionada com piora da qualidade do sono são os chamados Distúrbios Respiratórios do Sono, que apresentam múltiplas causas incluindo a Síndrome da Apnéia/Hipopnéia Obstrutiva do Sono. A maior dificuldade do indivíduo em respirar durante o sono pode levar a queda na saturação de oxigênio no sangue e a um estado crônico de má oxigenação e retenção de gás carbônico. Isto leva a pessoa a apresentar um maior número de microdespertares noturnos, diminuição dos períodos de sono profundo, que acabam por induzir um aumento daqueles hormônios relacionados ao estresse que levam ao ganho de peso e diabetes. Por conta disto, o indivíduo passa a ter maior facilidade em ganhar peso e este sobrepeso pode levar a uma piora deste quadro de dificuldade respiratória durante o sono, devido ao efeito obstrutivo do tecido adiposo adquirido sobre as vias aéreas, que por sua vez piora ainda mais a capacidade respiratória, criando um verdadeiro círculo vicioso. E o que podemos fazer para ter uma noite de sono melhor e ajudar na prevenção destas doenças? Algumas dicas que podemos seguir para ter uma melhor qualidade do sono, são: – Marcar reuniões de trabalho ou outros compromissos profissionais no período noturno somente quando realmente necessário. – Se o seu trabalho envolve o período noturno, considere uma mudança de turno, mesmo que esta troca não seja imediata. – Caso tenha mesmo que levar trabalho para casa ou tenha que estudar até mais tarde para uma prova ou concurso, imponha um horário limite para a conclusão dos mesmos, uma sugestão seria interromper no máximo até às 22 horas. – Outra opção seria respeitar o horário de ir para cama e acordar um pouco mais cedo. É melhor esta hora-extra antes do expediente do que após para nosso sistema endócrino. – Diminua o número de lâmpadas ligadas em casa para somente o necessário. Isto ainda vai lhe ajudar a economizar energia elétrica. – Desligue ou deixe distante de sua cama telefone celular, tablet e computador. Se possível retire a TV do quarto ou pelo menos dificulte o acesso ao controle remoto. – Evite o consumo de alimentos psicoestimulantes no período noturno, como café, chás verdes, refrigerantes a base de cola e guaraná, energéticos, chocolate, queijos, etc, e alimentos de difícil digestão como carnes e molhos gordos, frituras, pratos muito volumosos, etc. – Se alguém percebeu que você ronca muito à noite ou apresenta pausas prolongadas na respiração e sonolência diurna excessiva, procure um médico otorrinolaringologista. Você pode apresentar o chamado Distúrbio Respiratório do Sono, que abrange a Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono, cujo mecanismo foi descrito acima. – E caso realmente a semana que está tendo não permita um sono adequado, tente compensar com um período de sono um pouco mais prolongado ou pequenos cochilos aos fins de semana. Esta não é a medida ideal, mas pode ser útil em momentos de maior privação de sono. Espero que estas dicas e uma maior conscientização da importância de ter um sono adequado ajude você a ter mais saúde! Gostou deste artigo? Cadastre-se aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Nódulo de Tireóide: o que é necessário saber?

O achado incidental de nódulo de tireóide em exames de ultrassonografia tornou-se uma das queixas mais comuns nos consultórios de endocrinologia e cirurgia de cabeça e pescoço nos últimos anos. Pode-se afirmar que um dos principais fatores responsáveis por esta “epidemia” de nódulos de tireóide nos dias atuais está relacionado a uma maior facilidade de acesso da população a métodos diagnósticos como a ultrassonografia, bem como a maior solicitação de exames, muitas vezes sem critérios, por parte dos médicos, ao considerar o mesmo como um exame “de rotina”. Então, o nodulo de tireóide é algo comum e eu posso ter também. Devo me preocupar? Aqui é importante destacar que, apesar do maior número de achados em exames de imagem de nódulos de tireóide e, por tabela, de câncer de tireóide, a mortalidade relacionada a este tipo de câncer não aumentou nos últimos anos. O que quer dizer que estamos fazendo mais diagnósticos de pequenas lesões, algumas delas com células malignas, impalpáveis ao exame físico da tireóide e que muito provavelmente não iriam evoluir com crescimento e disseminação (metástases) ao longo da vida destas pessoas. Apenas um pequeno percentual destas lesões pode representar perigo ao paciente. Portanto, não se deve fazer exame de rastreamento de nódulos de tireóide por ultrassonografia em todas as pessoas. E quem deve ser selecionado para exame de ultrassonografia? É consensual que os seguintes grupos de pessoas devem ser investigados: portadores de nódulo de tireóide palpável, indivíduos expostos a radiação no pescoço (ex: submetidos a tratamento com radioterapia, técnicos de radiologia que não utilizam proteção própria para o pescoço, etc), histórico familiar de câncer de tireóide e neoplasia endócrina múltipla e portadores de tireoidites crônicas, como a Tireoidite Hashimoto, cuja palpação da tireóide é imprecisa e gera dúvidas. É discutível a indicação de realizar ultrassonografia de tireóide em mulheres a partir dos 50 anos de idade ou em outras situações clínicas. Descobri que tenho um nódulo de tireóide! E agora? Preciso fazer uma biópsia? Não há motivo para pânico! A grande maioria dos nódulos de tireóide encontrados é benigno e, mesmo dentro do pequeno percentual de nódulos malignos rastreados, a regra é a predominância de tumores de crescimento lento e na maioria das vezes com alta probabilidade de cura. Não se deve solicitar punção aspirativa por agulha fina (PAAF), popularmente chamada de “biópsia” de nódulo de tireóide, para todos os nódulos detectados ao exame de ultrassom. Somente uma minoria destes nódulos apresentará critérios radiológicos de suspeita para malignidade e, a análise cuidadosa destes nódulos deverá ser sempre feita por endocrinologistas e/ou cirurgiões de cabeça e pescoço com experiência na área, para que se evite exames dispensáveis, algumas vezes dolorosos e que possam levar a cirurgias igualmente desnecessárias e com potencial risco de complicações. Encontrou um nódulo de tireóide? Muita calma nesta hora! Procure um especialista e não entre em pânico! Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Dieta sem glúten: verdades e mitos

Chegou a hora de abordarmos um tema controverso: o glúten. De tempos em tempos surgem novas dietas que prometem levar a uma perda de peso e a um estilo de vida mais saudável. Quem nunca leu a respeito ou mesmo tentou fazer uma “dieta da moda” principalmente para emagrecer? A bola da vez agora é a dieta livre de glúten, promovida em boa parte por alguns nutricionistas funcionais e por matérias e livros como “Barriga de trigo”. Mas afinal de contas o que é o glúten? O glúten é uma proteína encontrada no trigo, na cevada e no centeio, algumas vezes pode ser encontrada também na aveia devido a contaminação por outros grãos que contém esta proteína no processo de colheita e armazenagem. Logo, alimentos preparados com estes ingredientes, como pães, massas, biscoitos, cerveja, etc, irão conter glúten. Tais alimentos devem vir especificados em suas embalagens da presença do glúten em sua composição. Algumas pessoas apresentam uma forma grave de intolerância ao glúten conhecido por Doença Celíaca. Neste caso, o contato do glúten com a parede intestinal, mais especificamente uma fração desta proteína conhecida por gliadina, induz a uma reação de hipersensibilidade do organismo de pessoas geneticamente predispostas, com a formação de anticorpos contra a gliadina. Esta reação acaba por levar a uma destruição da superfície mucosa do intestino responsável pela absorção. Por conta desta grave lesão na mucosa intestinal, surge um quadro de má digestão e má absorção generalizada de nutrientes, que provoca sinais e sintomas como dor abdominal intensa, náuseas, vômitos, distensão abdominal, flatulência, fraqueza muscular, câimbras, dermatite, osteoporose, neuropatias, perda de peso (em alguns casos há ganho de peso por aumento no estímulo a ingesta de outros alimentos que não contém glúten), anemia, retardo do desenvolvimento pôndero-estatural em crianças, entre outros. Estudos recentes mostram que alguns indivíduos apresentam uma forma de intolerância ao glúten não mediada imunologicamente (não-celíacos), mais branda e que provoca sintomas como desconforto abdominal e sensação de estufamento. Em ambos os casos é recomendável restrição absoluta do glúten da dieta, principalmente nos portadores de Doença Celíaca. E entre as pessoas que toleram normalmente o glúten? Existe algum benefício em sua retirada? Não existe evidências científicas sólidas que sustentem a eliminação do glúten da dieta, seja com o intuito de promover perda de peso ou simplesmente como forma de se obter uma dieta mais saudável. Muitos dos estudos que tentam ratificar a restrição de glúten da dieta visando emagrecimento são de caráter experimental, desenvolvido em modelos animais ou em grupos populacionais muito reduzidos. Baseados na premissa de que o glúten exerceria um efeito estimulador de apetite (há um aumento de alguns hormônios estimuladores do apetite nos celíacos, mas acredita-se que este aumento é compensatório ao quadro de má nutrição destes pacientes), estes pequenos estudos tentam provar a relação do glúten com ganho de peso. Na prática, entretanto, os resultados são conflitantes e não dão sustentação a esta conduta. Entretanto, alguns podem afirmar terem visto ou mesmo notado em si que ao eliminarem o glúten da dieta emagreceram. O que aconteceu então? Observamos que ao retirar o glúten, muitas pessoas acabam fazendo substituições alimentares que levam a redução do montante calórico, ao trocar pães, massas e biscoitos por frutas, vegetais, legumes, algumas sementes e carnes magras. Por outro lado, a simples retirada do mesmo da dieta não necessariamente levará a uma redução na ingesta calórica. Alguns alimentos vendidos como livres de glúten podem conter uma quantidade maior de açúcares e gorduras e o resultado não ser o esperado. Além disto, tais alimentos costumam ser mais caros. Para finalizar, do ponto de vista nutricional retirar alimentos que contém glúten em sua composição pode significar redução de alguns nutrientes que normalmente acompanham o trigo, a cevada e o centeio, como vitaminas do complexo B, cálcio, zinco, magnésio e fibras. Em resumo, a menos que um indivíduo possua alguma forma de intolerância ao glúten comprovada, não há benefícios em se retirar o glúten da dieta. Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Excesso de peso e medicamentos: boa ou má idéia?

Quem sofre com o excesso de peso sabe que nem sempre é fácil eliminá-lo ! O pilar para uma perda de peso saudável e sustentável, sem dúvida nenhuma, continua a ser através de um programa de reeducação alimentar supervisionado contendo uma dieta de baixa caloria associado a atividades físicas Entretanto, vários estudos demonstram que o tratamento convencional do excesso de peso com dieta e exercícios físicos apresentam um baixo percentual de sucesso terapêutico, além de uma alta incidência de reganho de peso a médio e longo prazo. Por que será que isso acontece? Será que tratar o excesso de peso depende apenas da força de vontade do paciente? Apesar de todos nós sabermos que a mudança de estilo de vida é a chave para um emagrecimento saudável, muitos pacientes não conseguem adotar esta mudança por completo e de maneira definitiva e se frustram com os resultados. Citamos a seguir alguns dos fatores que favorecem o excesso de peso e dificultam e muito o emagrecimento: obesidade de longa data, excesso de peso acentuado, compulsão por determinados alimentos “viciantes” (doces, refrigerantes, frituras, etc.), quadros ansiosos e depressivos que levam a uma ingesta alimentar de alívio ou compensatória, limitações motoras para prática de atividades físicas, influência ambiental negativa (exemplo: familiares, amigos e colegas obesos), falta de tempo para o preparo de refeições mais saudáveis e para exercícios físicos, etc. Isso sem contar outros fatores que atrapalham a perda de peso mesmo naqueles que procuram seguir tudo à risca, como fatores genéticos, sono inadequado, mudanças na flora intestinal, entre outros. E como abordar o excesso de peso nestes casos? O uso de medicamentos anti-obesidade deve sim ser considerado em várias destas situações, já que é uma doença que pode trazer complicações futuras, algumas potencialmente fatais. Porém, nenhuma destas medicações é milagrosa e é preciso que o paciente não perca o foco nas mudanças de estilo de vida, somente assim o excesso de peso será resolvido definitivamente. Remédios isoladamente também não surtem efeito! Além disto, sempre existe o risco de efeitos adversos e pode haver contraindicações a um ou mais fármacos a depender de doenças associadas que a pessoa apresenta. E aí entramos em um outro ponto polêmico. Por que tantas pessoas usam estas medicações, perdem peso e depois engordam novamente e nunca saem do famoso “efeito sanfona”? Mesmo com o uso destes medicamentos, perder peso por si próprio não é algo simples e exige um comprometimento de longo prazo dos pacientes. O processo de emagrecimento passa por duas fases: de indução de perda de peso e de manutenção do novo peso. É comum vermos pacientes abandonarem o uso da medicação logo no início do tratamento, seja pela falsa crença de que medicações devem ser utilizadas pelo menor tempo possível ou mesmo pela perda da motivação inicial, que levam os mesmo a esquecerem de usar as medicações regularmente, faltam nas consultas e não renovam a receita médica, deixam de usar as medicações nos finais de semana e nas férias entre outros. O desmame destas medicações é gradual e deve ser feito preferencialmente ao longo da fase de manutenção. É como se o organismo necessitasse de um certo período para se adaptar ao novo peso e a nova rotina de vida. E mesmo assim, o risco de reganho de peso nunca será totalmente eliminado, é preciso vigilância constante. Portanto, o uso de medicações para o tratamento do excesso de peso pode ser uma boa ideia, mas nunca deve ser feito fora de um contexto de mudança de estilo de vida, de maneira indiscriminada, sem acompanhamento médico e motivado apenas por perdas mínimas e estéticas. Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Vitamina D: Por que é tão importante ?

Nos últimos anos a Vitamina D ganhou um papel de destaque jamais visto. Atualmente existe uma ampla variedade de marcas e dosagens de suplementos desta vitamina à disposição nas farmácias, além de uma maior disponibilidade de ensaios laboratoriais para a dosagem da mesma (25OH Vitamina D, ainda relativamente cara). Muitos pacientes, inclusive, pedem aos médicos que incluam sua dosagem nos exames de rotina. Quais os reais benefícios da Vitamina D, hoje considerada um hormônio por alguns endocrinologistas? O principal e mais conhecido papel da Vitamina D está relacionado ao Metabolismo do Cálcio e Ósseo. Através dela há um aumento na capacidade de absorção intestinal do cálcio, seja na forma presente na dieta ou em suplementos. O cálcio é fundamental no processo de mineralização óssea e auxilia na prevenção de doenças como a Osteoporose, o Raquitismo e a Osteomalácia, além de auxiliar em diversas funções do organismo, como contração muscular, condução de impulsos nervosos, etc. A Vitamina D também age diretamente sobre os músculos, melhorando sua função e prevenindo quadros de fraqueza, miopatia e quedas e esse ganho é mais notável em idosos. Outros benefícios da Vitamina D divulgados em diferentes mídias como prevenção do Diabetes, alguns tipos de Câncer, Depressão, diminuição no risco de Doenças Cardiovasculares e Doenças Autoimunes, ainda carecem de uma evidência científica mais consistente, entretanto estudos preliminares a respeito de alguns destes tópicos mostraram-se promissores. Portanto, aguardemos por novidades nesta área. E como faço para manter níveis adequados de Vitamina D? O principal meio de se obter esta vitamina é através da exposição solar, mais especificamente através dos raios UVB, que estimularão a síntese cutânea da mesma. Dependendo do tipo de pele, recomenda-se banho de sol de 15 a 60 minutos ao dia, com ao menos 25% a 50% da superfície corporal exposta (vestindo shorts e camiseta de manga curta, por exemplo). Recomenda-se, entretanto, que esta exposição seja longe do horário de pico de incidência dos raios UVB, antes das 10 horas da manhã e após às 16 horas, para minimizar os riscos de desenvolver Câncer de Pele. Devido ao estilo de vida urbano em que é muito comum passarmos horas em ambientes fechados e muitas vezes usando roupas que cobrem quase todo o corpo, nem sempre recebemos quantidades suficientes de luz solar e o que se observa nos dias de hoje é uma verdadeira epidemia de insuficiência ou deficiência de Vitamina D. Nestes casos, incentivamos aumentar o consumo de alimentos ricos em Vitamina D, como peixes gordurosos (atum, salmão, truta, etc.), gema de ovo, óleo de fígado de bacalhau, cogumelos, laticínios enriquecidos e cereais. Suplementos de Vitamina D podem ser necessários nos casos em que apesar das medidas acima citadas seus níveis permanecem baixos e em populações de risco para falta desta vitamina como idosos, pacientes acamados por longo período, portadores de alguma contraindicação formal à exposição solar, etc. A prescrição de tais suplementos, bem como a indicação de dosagens laboratoriais de Vitamina D, devem sempre ser indicados e acompanhados por um médico. Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
